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Ele e Ela

Assim que ela o conheceu entendeu que ele era um sedutor incorrigível. Durante os 13 meses e 16 dias em que trabalharam juntos, ela observou-o atentamente, com cautela e sem pressa. À época, ele era o chefe. Ela, só mais uma das tantas pessoas que orbitavam ao redor dele. Nem mesmo ela compreendia o fascínio que aquele homem lhe causava. Quase 20 anos mais velho, era daqueles que flertava com todas, inclusive com ela. como você está linda hoje, Helena. - dizia ele, às vezes, sem nenhum constrangimento, em meio a uma reunião importante. Ela, por sua vez, odiava os elogios sinceros e absurdamente inconvenientes, mas passava horas rememorando-os na lembrança, amando e odiando ao mesmo tempo. Machista e pretensioso! - pensava ela enquanto revirava os olhos em um gesto muito seu. Mas no fundo, admirava-o pela liderança nata que exercia na corporação. Foi quando se deu conta que não era a única fascinada por ele. Homens e mulheres o seguiam de olhos fechados. Para ela, antes de o conhecer, se…

Relógio

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Ele fazia aquele bang-bang a cada meia hora. Pregado na parede um dos corredores da grande casa, o relógio de dona Nenê era daqueles de corda, em formato de cuco. Havia sido um presente de casamento, há mais de 20 anos. Nenê era apenas uma menina de 16 anos recém feitos quando o colocaram em seu colo.
Olhe, Nenê, o que o velho Alceu lhe deu. - Alceu era o relojoeiro do povoado e tinha uma loja de lindos relógios. Eram tão encantadores que era um custo escolher um único modelo sem ficar em dúvida. Ela olhou curiosamente para a peça, tocando na madeira escura esculpida a mão. Reparou nos ponteiros que brilhavam como ouro, no pêndulo que tinha um formato mágico de uma seta dourada. O vidro era modestamente decorado com desenhos singelos, delineando as bordas de forma delicada. Céus, esse deve ser o santo graal dos relógios - pensou Nenê com os olhos vidrados.
Nos primeiros meses, o marido quase quebrou o relógio com um punhado de pupunhas. O pobre via-se perseguido pelas badaladas da ger…

Nascer todos os dias

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Quando ele chegou ali, era tudo mato. Não tinha cercado e nem arado. A terra parecia árida, mas o coronel estava cansado de rodar o mundo atrás de um pedaço de chão. Foi assim, fugindo de uma chacina que lhe deixaria emudecido por quase uma década, que Constâncio Oliveira do Rosário chegou à Charque Seco. Naquela época nem podia ser chamado de vilarejo. Tinha apenas uns dez casebres que margeavam a ferrovia. Chegou em época de seca brava, aos 17 anos, esquálido como um boi faminto. Os pés cansados calçavam uma percatinha já muito gasta e nas costas trazia um saco de pano, com tudo o que tinha na vida: três mudas de roupa e o retrato da mãe cuja última lembrança era o olhar apavorado e um grito apavorante - Corre, Cicinho!
O coronel constâncio contava essas lembranças sempre que podia e um dia a neta perguntou-lhe:
Meu avô, porque o senhor conta essa história tantas vezes? Porque considero, Melissa, que foi nesse dia que eu nasci. Imagine, se eu contar essa história todos os dias, é quas…

Eu sinto muito. Me perdoe. Te amo. Sou grata.

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Ho'oponopono
E se nós todos fôssemos de fato conectados uns aos outros? E se nossos subconscientes interferissem realmente no subconsciente do outro? E aí vai mais uma ideia bombástica: e se nós formos 100% responsáveis por tudo aquilo que acontece em nossas vidas, inclusive por aquilo que achamos não ter o controle?
Onde exatamente estas três perguntas essenciais convergem? E como? 
Vamos supor que as respostas para elas seja SIM. Sim, somos todos um. Por isso SIM, nossos subconscientes afetam os subconscientes do próximo e SIM,  somos absolutamente responsáveis por tudo o que acontece de bom e de ruim em nossas vidas. 
Se isso tudo for verdade, significaria que se estamos doentes de alguma forma, nós podemos nos curar. Significaria dizer que, além de nós mesmos, nós podemos curar o outro curando a nós mesmos, pois somos todos um. Uma corrente humana formada por mais de 7 bilhões de almas conectadas, capazes de emitir um som uníssono se assim quiséssemos, com o pensamento. Capazes de…

Certos amores têm fim sem adeus

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Perder alguém é sempre algo muito difícil, mas acredito que a pior perda é aquela que a gente não pode sequer se despedir. Sem olhar nos olhos, sabe? O olhar de alguém que a gente tanto amou diz muita coisa sobre aquele momento final. 
É como se faltasse um final e você ficasse esperando a continuação pra aquele filme. A dor da perda é imensa, isso é inegável, mas ela vem com um plus quando não existe a chance de você dizer adeus, seja por morte ou por um relacionamento que ruiu pelas intempéries da vida. 
É aí que chega a sua vez de elaborar o seu luto, a sua perda. Você vai precisar de muita resiliência pra entender que não haverá closurepara aquele fim. Você não vai poder gritar com aquele ser humano e dizer o quanto você, apesar de estar muito puta, sente saudades. Vai ser impossível você chorar no ombro dele e agradecer por todos os bons momentos que passaram juntos. Você vai ter que se perdoar por não ter previsto que a insensatez alheia não tem limites e que, ao contrário do que …

Não se esqueça de sorrir

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Eu sei que tem dias que você está com vontade de chorar. Bate aquela tristeza, né? De repente, do nada, você está dirigindo e se sente só. Simples assim. Ou sente saudades. Ou recorda de uma lembrança muito muito triste. Então, chore.
Eu sei que há ocasiões que a solidão te visita de quando em vez. Dá aquela sensação de desamparo. Como se, em meio a 7 bilhões de seres humanos, ninguém mais te entendesse ou se importasse com você. Simplesmente chore. 
A gente sabe que quando se perde um grande amor é um luto. É uma perda imensa e o seu coração, às vezes, parece que não vai aguentar. Não é? Mas ele vai. Ele já suportou muita coisa até aqui e é mais forte do que você pensa. Mas no fundo você também sabe disso. Apenas chore. 
A vida é foda. Ninguém jamais disse que seria fácil. Mais foda ainda é você tentar se encaixar no papel que o social acha que você tem que desempenhar. Mulher, profissional, namorada, esposa, mãe, descolada, feliz, aquela-que-dá-conta-de-tudo, boa filha, amiga atenciosa…

Smile like you mean it

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Ela só queria saber quando voltaria a sorrir. Quando voltaria a dar aquela gargalhada solta, espontânea. Sabe? Daquelas que a gente chora e a barriga dói. Olhava para si mesma e achava-se bela, mas calejada. Cansada. As olheiras indicavam que havia dias não dormia bem. Somente ela sabia o quanto lhe custavam as noites em claro. As roupas largas denotavam que também não estava comendo como deveria. 
Naqueles dias olhava a vida sem muito interesse e daria qualquer coisa pra poder ficar em silêncio, debaixo das suas cobertas. Estava triste, é claro. A vida, uma vez mais, lhe pedia plasticidade e o rigor do luto tornava seu semblante austero. 

Mas aí ela parou pra respirar. Não foi simples. Foi, inclusive, muito doloroso. Lágrimas quentes rolavam encharcando-lhe o rosto enquanto inspirava e expirava. Sua mente incansável rendia-se à poderosa e única ferramenta que está sempre no Agora: a respiração. 

Era como um filme passando em sua mente: viu-se ainda menina, levando uma bronca de seu pai …