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Menina

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Ele a chamava “Minha menina” muito embora ela já não fosse uma, há muito tempo. Não se ofenda, dizia ele, é que com você eu também me sinto um garoto a despeito dos meus fartos cabelos grisalhos". ele falou certa vez. - Você, Leila, é leveza e poesia ao vento. - disse passeando com os dedos pelas sinuosas curvas do corpo dela. 
- Você também pode ser leve. Sabia?
- Alguém me disso isso uma vez, mas eu quero ser leve com você. O que você me diz?
- O que eu digo? Digo que sim, mas confesso que é querendo dizer não. - respondeu Leila em um tom displicente.
- Você tem medo? - ele a puxou para si, fazendo-a olhá-lo nos olhos. Leila fechou os olhos, tocou o próprio peito do lado esquerdo, inspirou e abriu os olhos novamente. 
- Sim. Tenho medo. 
- Impossível, meu bem, você é a mulher mais corajosa que já conheci. 
- Coragem eu tenho. Mas para ter coragem é preciso existir o medo, Pedro. 
- Eu não vou te machucar. - ele murmurou.
- Muitos já disseram isso, mas eu não tenho medo de me ma…

E se houver silêncio…

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E se houver silêncio quando for preciso gritar? Quando for necessário se libertar? Desconstruir? E se houver silêncio quando a vida pedir palavras? Quando a maré cheia vier inundar os compartimentos da mente que estão entulhados de coisas velhas e antiquadas? E se a mordaça do comodismo for barreira para as transformações inevitáveis do ser?
Se houver silêncio, grite. Flua. Descontrua-se para reerguer-se novamente. A cada passo da jornada a vida vai pedir plasticidade e vai ser preciso entender que ninguém veio ao mundo a passeio.
A vida é phoda, mano. Rebele-se. Expresse-se. Se houver silêncio quando a hora é de ter voz plante flores pelo caminho. Tenha compaixão em vez de pena, levante companheiros de jornada, afinal você não é o único que já teve sonhos esfarelados. .
Tenha em mente que o silêncio deve vir em outros momentos e de um outro lugar muito mais profundo e verdadeiro. O silêncio que traz paz vem de uma calma interior intrínseca a todos nós. Somos e viemos dele.


Ele e Ela

Assim que ela o conheceu entendeu que ele era um sedutor incorrigível. Durante os 13 meses e 16 dias em que trabalharam juntos, ela observou-o atentamente, com cautela e sem pressa. À época, ele era o chefe. Ela, só mais uma das tantas pessoas que orbitavam ao redor dele. Nem mesmo ela compreendia o fascínio que aquele homem lhe causava. Quase 20 anos mais velho, era daqueles que flertava com todas, inclusive com ela. como você está linda hoje, Helena. - dizia ele, às vezes, sem nenhum constrangimento, em meio a uma reunião importante. Ela, por sua vez, odiava os elogios sinceros e absurdamente inconvenientes, mas passava horas rememorando-os na lembrança, amando e odiando ao mesmo tempo. Machista e pretensioso! - pensava ela enquanto revirava os olhos em um gesto muito seu. Mas no fundo, admirava-o pela liderança nata que exercia na corporação. Foi quando se deu conta que não era a única fascinada por ele. Homens e mulheres o seguiam de olhos fechados. Para ela, antes de o conhecer, se…

Relógio

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Ele fazia aquele bang-bang a cada meia hora. Pregado na parede um dos corredores da grande casa, o relógio de dona Nenê era daqueles de corda, em formato de cuco. Havia sido um presente de casamento, há mais de 20 anos. Nenê era apenas uma menina de 16 anos recém feitos quando o colocaram em seu colo.
Olhe, Nenê, o que o velho Alceu lhe deu. - Alceu era o relojoeiro do povoado e tinha uma loja de lindos relógios. Eram tão encantadores que era um custo escolher um único modelo sem ficar em dúvida. Ela olhou curiosamente para a peça, tocando na madeira escura esculpida a mão. Reparou nos ponteiros que brilhavam como ouro, no pêndulo que tinha um formato mágico de uma seta dourada. O vidro era modestamente decorado com desenhos singelos, delineando as bordas de forma delicada. Céus, esse deve ser o santo graal dos relógios - pensou Nenê com os olhos vidrados.
Nos primeiros meses, o marido quase quebrou o relógio com um punhado de pupunhas. O pobre via-se perseguido pelas badaladas da ger…

Nascer todos os dias

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Quando ele chegou ali, era tudo mato. Não tinha cercado e nem arado. A terra parecia árida, mas o coronel estava cansado de rodar o mundo atrás de um pedaço de chão. Foi assim, fugindo de uma chacina que lhe deixaria emudecido por quase uma década, que Constâncio Oliveira do Rosário chegou à Charque Seco. Naquela época nem podia ser chamado de vilarejo. Tinha apenas uns dez casebres que margeavam a ferrovia. Chegou em época de seca brava, aos 17 anos, esquálido como um boi faminto. Os pés cansados calçavam uma percatinha já muito gasta e nas costas trazia um saco de pano, com tudo o que tinha na vida: três mudas de roupa e o retrato da mãe cuja última lembrança era o olhar apavorado e um grito apavorante - Corre, Cicinho!
O coronel constâncio contava essas lembranças sempre que podia e um dia a neta perguntou-lhe:
Meu avô, porque o senhor conta essa história tantas vezes? Porque considero, Melissa, que foi nesse dia que eu nasci. Imagine, se eu contar essa história todos os dias, é quas…

Eu sinto muito. Me perdoe. Te amo. Sou grata.

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Ho'oponopono
E se nós todos fôssemos de fato conectados uns aos outros? E se nossos subconscientes interferissem realmente no subconsciente do outro? E aí vai mais uma ideia bombástica: e se nós formos 100% responsáveis por tudo aquilo que acontece em nossas vidas, inclusive por aquilo que achamos não ter o controle?
Onde exatamente estas três perguntas essenciais convergem? E como? 
Vamos supor que as respostas para elas seja SIM. Sim, somos todos um. Por isso SIM, nossos subconscientes afetam os subconscientes do próximo e SIM,  somos absolutamente responsáveis por tudo o que acontece de bom e de ruim em nossas vidas. 
Se isso tudo for verdade, significaria que se estamos doentes de alguma forma, nós podemos nos curar. Significaria dizer que, além de nós mesmos, nós podemos curar o outro curando a nós mesmos, pois somos todos um. Uma corrente humana formada por mais de 7 bilhões de almas conectadas, capazes de emitir um som uníssono se assim quiséssemos, com o pensamento. Capazes de…

Certos amores têm fim sem adeus

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Perder alguém é sempre algo muito difícil, mas acredito que a pior perda é aquela que a gente não pode sequer se despedir. Sem olhar nos olhos, sabe? O olhar de alguém que a gente tanto amou diz muita coisa sobre aquele momento final. 
É como se faltasse um final e você ficasse esperando a continuação pra aquele filme. A dor da perda é imensa, isso é inegável, mas ela vem com um plus quando não existe a chance de você dizer adeus, seja por morte ou por um relacionamento que ruiu pelas intempéries da vida. 
É aí que chega a sua vez de elaborar o seu luto, a sua perda. Você vai precisar de muita resiliência pra entender que não haverá closurepara aquele fim. Você não vai poder gritar com aquele ser humano e dizer o quanto você, apesar de estar muito puta, sente saudades. Vai ser impossível você chorar no ombro dele e agradecer por todos os bons momentos que passaram juntos. Você vai ter que se perdoar por não ter previsto que a insensatez alheia não tem limites e que, ao contrário do que …